Reflexões sobre a Ressurreição de Jesus
A celebração da Páscoa nos aproxima dos relatos do túmulo vazio e das aparições do Senhor, expressos no Novo Testamento. Essas narrações não se sentem presas a uma estrutura jurídica, mas comunicam a experiência da ressurreição em toda a sua imensidade. Nessa reflexão, apontaremos algumas características importantes colhidas da teologia desses textos.
1. Os relatos do túmulo vazio
A mensagem central que emerge do túmulo vazio constitui-se num sinal que aponta para algo acontecido. Maria Madalena dá o grito inicial, desencadeando o processo de busca na fé. Podemos destacar duas características importantes em tais relatos:
1.1 O processo da fé
Teologicamente, todo o simbolismo representado no túmulo está carregado de verdades e constitui uma função pedagógica para a fé:
a) As mulheres veem simplesmente a ausência no sepulcro, ou seja, não veem nada;
b) O anjo aparece como o símbolo da intervenção de Deus, alguém que pode interferir na realidade humana;
c) No momento em que as mulheres puderam ver, ouvir e, finalmente, crer, fica evidente a revelação do acontecido.
1.2 O túmulo aponta para o acontecido
A ida das mulheres ao sepulcro e a constatação de que ele estava vazio não é, portanto, o centro do relato, mas fornece a seta que aponta para a mensagem central da ressurreição, expressa pelo anjo: “Vós buscais Jesus, o crucificado? Ele não está aqui” (Mc 16,6).
A situação do sepulcro dá um colorido ao querigma, fazendo o crente se afastar do sepulcro e procurar Jesus entre os vivos.
Sem ser prova da ressurreição de Jesus, esses relatos servem de quadro cênico para uma mensagem, apoiando outros testemunhos do Novo Testamento.
2. As narrativas das aparições
Destacaremos três aspectos que emergem desses relatos e que podem nos ajudar a reconhecer a presença do Ressuscitado em nossas vidas (cf. Mt 28,1-20; Mc 16,1-20; Lc 24,1-11; Jo 20,1-10; 20,11-18; 20,19-23; 20,24-29; 21,1-14):
2.1 A iniciativa é sempre do Senhor
É o Senhor quem desencadeia a experiência e desconcerta os discípulos. É interessante perceber que Jesus toma a iniciativa e se mostra ressuscitado às discípulas e aos discípulos, fazendo com que mudem de perspectiva. Jesus não está morto, mas vivo entre eles.
2.2 A dúvida e o reconhecimento
O fato de, no início dos relatos pascais, os discípulos não reconhecerem Jesus mostra que, apesar de ser o mesmo Jesus que aparece, ele não faz mais parte deste mundo material. Os discípulos passam por um processo para reconhecer Jesus ressuscitado.
Aos poucos, vão percebendo que o Ressuscitado é o mesmo Jesus de Nazaré. É uma experiência real, verdadeira, que se refere ao mesmo Jesus com o qual os discípulos tinham convivido. De fato, eles reconhecem Jesus a partir de gestos terrenos. São esses gestos conhecidos que permitem a afirmação: “É ele!” (Jo 21,7).
2.3 O Ressuscitado envia os discípulos em missão
Depois de reconhecido, o Senhor desaparece e indica um movimento a mais na vida dos discípulos. O encontro com o Senhor ressuscitado leva-os a viver essa experiência de outra forma: é hora de testemunhar a ressurreição em meio aos irmãos.
É importante perceber que esses relatos passaram por um processo até chegar à redação final e, nesse percurso, foram sendo incorporadas as diversas correntes existentes nas primeiras comunidades cristãs sobre a tradição pascal. Os relatos evangélicos não são biografias de Jesus, mas procuram transmitir, de forma catequética, as verdades de fé, oferecendo-nos uma didática para o encontro com o Ressuscitado.
Ir. Valdete Guimarães, SMR
