Notícias

18 fev

A EXPERIÊNCIA DE JESUS DIANTE DE SUA PRÓPRIA MORTE VIOLENTA

REFLEXÕES QUARESMAIS

O tempo da quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas, e vai até a missa da Ceia do Senhor, que acontece na quinta-feira. Depois desse período, inicia-se o Tríduo Pascal. Essa época do ano é um momento especial para refletirmos, nos convertermos e mudarmos nossas atitudes, acolhendo a Palavra de Deus em nossas vidas. A mudança que nos é proposta é inspirada na vida, na paixão, na morte e ressurreição de Jesus.

Cada semana vamos postar um pequeno texto que pode ajudar em nossa reflexão, conhecimento e transformação interior.

 

TEXTO I

A EXPERIÊNCIA DE JESUS DIANTE DE SUA PRÓPRIA MORTE VIOLENTA

O significado da morte de Jesus vem iluminado pela Ressurreição. Essa luz não deve diminuir a densidade real, histórica da escuridão, da agonia, da experiência do abandono e do fracasso junto com a dor física, vividas por Jesus nas horas transcorridas entre a angústia do Horto e a morte da cruz.

Vista a partir do próprio Jesus, sua morte foi interpretada com relação à própria vida, pois o Novo Testamento evidencia a rejeição, provocada por sua mensagem e por sua práxis de solidariedade com os “impuros”, com os publicanos e pecadores. A morte que aos poucos vai se aproximando de Jesus foi um dado que Ele mesmo precisou integrar na total entrega de si mesmo a Deus, porém assumindo-a também com a convicção da urgência de sua mensagem. As palavras de Jesus expressas na hora da cruz: “seja feita não a minha vontade, mas a sua” (Mc 14,36) podem não ser históricas, mas expressam a consequência anterior de sua pregação. Porém, aceitar a vontade do Pai ainda não significa avaliar concretamente o sentido do que vai acontecer. Mais adiante explicitaremos, segundo o autor, algumas lembranças históricas que mostram que Jesus seguiu consciente e livremente o seu caminho de cruz.

Os relatos de Mc 10,45; Lc 12,37; 22, 27; Jo 13,1-20, pertencem à tradição da “última ceia”, ligada à interpretação da morte de Jesus como “estar a serviço” – diakonia . Em Lc 37 e em Jo 13,1-20 encontramos igualmente a temática do serviço, pois o serviço caridoso do “lava pés” está no contexto de despedida de Jesus. Devemos desfazer a tese que Jesus desejou sua própria morte e a provocou como única maneira de realizar o Reino de Deus. Porque, afinal, todo o engajamento em favor de sua mensagem sobre a metanoia soaria como simulação caso Ele soubesse de antemão que a salvação dependeria somente de sua morte.

O sentido que Jesus deu à sua morte não podia ser diferente daquele que tinha dado à sua vida. Jo 10,10 condensa toda a vida de Jesus: devolve a vida às pessoas, uma vida doada para que os outros tenham vida e a tenham em abundância. Jesus tem consciência que a morte é uma consequência de sua vida doada em favor dos outros: “Ninguém me tira a vida, mas eu a renuncio por mim mesmo” (Jo 10,18). A morte é oferecida, a partir da liberdade de Jesus.

Portanto, fica claro que a morte de Jesus aparece somente na perspectiva da rejeição de sua pregação e da práxis de sua vida, que eram ofertas de salvação, principalmente aos pobres e oprimidos. Uma interpretação que seja oposta a essa perspectiva nega a dinâmica humana da vida de Jesus, desfazendo a reflexão de que Ele aprendeu durante o percurso concreto de sua vida, sendo verdadeiro homem. Arrisca-se ainda em reduzir à mera formalidade o significado salvífico da morte de Jesus, pois se ela fosse entendida separadamente de sua vida, converteríamos seu significado redentor simplesmente em um mito. A morte de Jesus é a expressão histórica do caráter incondicional de sua proclamação e estilo de vida, de onde provém as consequências fatais para a sua vida.

As recusas enfrentadas ao longo de sua vida, aos poucos, foram levando-o a pensar na possibilidade de uma condenação , porém Jesus ressignificou essa morte aceitando-a dentro do contexto de sua vida doada, pois todos os Evangelhos mostram que Ele aceitou a morte livremente. Percebe-se, inclusive, como essa ênfase na liberdade de Jesus aumenta gradualmente: “Levantem! Vamos! Já está aqui aquele que vai me entregar” (Mc 14,42). Em Jo 18,4-11, Jesus expressa que aceita o cálice da paixão.

Foi a consciência que Jesus teve diante de sua missão que acabou levando-o a aceitar a morte conscientemente, encarando-a como fidelidade ao projeto de Deus. A confiança inquebrantável no Pai faz Jesus afirmar, ainda antes da Páscoa, que sua causa seguiria em frente. Dessa forma, é ressaltada a continuidade existente entre a autoconsciência de Jesus e a interpretação pós-pascal.

Ir. Valdete Guimarães, SMR

 

SCHILLEBEECKX, Edward. Jesús, la historia de un viviente. Madrid: Cristiandad, 1983, p. 249

Publicações

Deixe um Comentário